quarta-feira, 15 de maio de 2013

Apunts Barcelona


Em 1991, a fim de possibilitar o avanço do processo de mercantilização dos Jogos Olímpicos, o COI revisou a Carta Olímpica. Tal operação tratou de centralizar a comercialização da propriedade intelectual e direitos de imagem do movimento olímpico, isto é, a galinha dos ovos de ouro do Comitê.

É certo que a conversão dos famosos cinco anéis de Coubertin numa mercadoria global foi o resultado de um longo processo, mas, como explica o economista da Unicamp Marcelo Proni, a partir de então, abriam-se de vez as portas para a exploração comercial dos Jogos - e em escala cada vez mais ampliada.

Barcelona 1992 confirmou, portanto, a definitiva transformação dos Jogos Olímpicos num megaevento dirigido pelos interesses do mundo dos negócios, processo que transcendeu ao próprio mundo esportivo, envolvendo a cidade sede em seu conjunto e demandando grandes investimentos em infraestrutura.

Não por acaso, há um consenso entre quem se dedica ao estudo do olimpismo que os Jogos de Barcelona constituem uma experiência paradigmática de planejamento e organização na história do movimento olímpico.

O governo catalão investiu mais de US$ 7 bilhões para abrigar o evento e transformou a cidade inteiramente, alçando-a à condição de um dos principais destinos turísticos da Europa.

De lá para cá, a expectativa é de que o êxito sempre se repita. Ainda que a conta seja alta, espera-se que os Jogos imprimam à feitura de cada nova cidade-sede saltos de inovação em produtos, serviços, estilos de vida e formas culturais.

Segundo o geógrafo da UERJ Gilmar Mascarenhas, o modelo Barcelona, como veio a ficar conhecido, além de combinar ação governamental e interesses privados, inaugurou uma forma de urbanismo baseado na monumentalidade arquitetônica, na invenção de lugares e na regeneração de espaços de desvalia, o que pode ser facilmente reconhecido no projeto Rio-Cidade Olímpica.

Já em 1996, quando o Rio de Janeiro postulou candidatura para os Jogos de 2004, realizados em Atenas, o governo do município contava com assessoria da empresa catalã Tecnologies Urbanas Barcelona S.A.

A candidatura não vingou, mas resultou na elaboração do Plano Estratégico da cidade, tendo nos eventos e megaeventos esportivos um de seus principais pilares.

É certo que o modelo Barcelona não é uma unanimidade. La ciudad mentirosa: fraude y miseria del modelo Barcelona ou El modelo Barcelona: un examen crítico são excelentes referências para quem deseja se inteirar de seus limites e problemas.

No entanto, a avaliação que prevalece é que os Jogos de 1992 lograram enorme sucesso, tanto em relação à organização e resultados esportivos alcançados, como pelos legados que deixaram.

Tal visão pode ser conferida em grande parte das publicações do Centre d'Estudis Olimpics da Universitat Autònoma de Barcelona - CEO-UAB.

Predominou também na opinião de vários pesquisadores com os quais tive a oportunidade de conversar em função de uma pesquisa realizada junto ao Institut Nacional d'Educació Fisica de Catalunya - INEFC.

Entre janeiro e março do ano passado, a partir de uma chamada interna da Assessoria de Assuntos Internacionais da UnB e com o apoio do Programa de Bolsas Iberoamericanas para Jovens Pesquisadores Santander Universidade, tive a oportunidade de desenvolver um intercâmbio junto ao Instituto.

Neste período, foi possível ainda visitar boa parte dos equipamentos olímpicos utilizados para os Jogos, tanto em Barcelona como na área metropolitana. Chamou atenção sua descentralização, funcionalidade e, em grande medida, simplicidade, algo bem distante da suntuosidade exigida pelo atual padrão COI, o que se relaciona à lógica de reprodução ampliada dos megaeventos.

As próprias instalações do INEFC-Barcelona, que serviram às competições de lutas, são uma herança dos Jogos.

Sob o ponto de vista acadêmico, além das novas instalações do INEFC e da criação do CEO-UAB, construíram também o CAR de Sant Cugat, um centro esportivo de alto rendimento que alia formação e pesquisa, aumentaram os investimentos e criaram um plano nacional de pesquisa em esporte como eixo setorial do Plan Nacional de I+D.

É neste contexto que se inscreve a história da Apunts. Educación Física y Deportes, revista científica multidisciplinar do INEFC que nasce em 1985, mesmo ano que Barcelona confirma sua candidatura aos Jogos de 1992.

Registradas estas breves notas de viagem, gostaria de apresentar a Revista Apunts, para a qual, desde o mês passado, junto com os brasileiros Ana Márcia Silva e João Ribas, tive a honra de ser convidado a contribuir como membro de seu Conselho Assessor.

Sob a direção do professor Javier Olivera Betrán, a Revista Apunts é publicada em castelhano e catalão, voltada à divulgação de artigos científicos da Educação Física e do Esporte.

As submissões podem ser realizadas a qualquer tempo. Sua periodicidade é trimestral e todo seu conteúdo pode ser acessado gratuitamente a partir de um excelente sistema de busca.

E antes que me perguntem, já vou logo avisando, sua avaliação junto ao Qualis da Educação Física é B4, resultado da métrica ISI e do viés médico ao qual está aprisionada nossa produção científica, isto é, resultado de nossa atração fatal para a biodinâmica.

Vale dizer, no entanto, que a Revista Apunts está indexada junto ao RESH, ao CARHUS Plus + - sistemas que integram indicadores de qualidade para periódicos das Ciências Sociais e Humanidades - e ao IN-RECS - sistema da área da Educação -, o que lhe faz figurar entre as melhores periódicos da área de Educação Física na Espanha e Europa, gozando de enorme credibilidade e visibilidade naquele país e continente.

Fica então o convite para que todos acessem a revista Apunts. Educación Física y Deportes.

Boa leitura!

6 comentários:

  1. Parabéns Fernando! Sucesso nessa nova empreitada.

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    1. Olá Paulete, bom saber que vocês está acompanhando o blog, obrigado pela força... vamos em frente!
      Abraço, Fernando

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  2. Silvio Ricardso da Silva15/05/2013 13:48

    Fernando, interessante esse dado de que o meio acadêmico em Barcelona avalia positivamente os Jogos de 1992. Eu tinha uma ideia diferente. temos muito a estudar por aqui e a experiência de Barcelona nos ajuda a pensar. Abração
    Silvio

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    1. Opa Silvio, penso que a auto-determinação catalã tenha falado alto, afinal Barcelona 1992 em muito se articula à reivindicação histórica de independência da região. Vc tem razão, a experiência de 1992 ensina muito, tanto sobre o movimento olímpico como sobre a história da Catalunha.
      Abraço, Fernando.

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    si estas de acuerdo me responde con un mensaje a emitacat@gmail.com

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    Emilia

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    Fernando

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